Pigarro e Rouquidão podem ser causados por problemas com o aparelho digestivo

A maioria das pessoas com refluxo laringofaríngeo tem como principais queixas a sensação de algo parado na garganta, que causa um pigarro intenso, muitas vezes relacionado com as refeições ou ao acordar.

Prof. Dra. Claudia A. Eckley

Normalmente, quando comemos a comida mastigada é engolida passando pelo esôfago até chegar no estômago. Lá ela será digerida por enzimas ativadas pelo ácido clorídrico e pelos sais biliares. Nosso estômago foi feito como uma perfeita caldeira capaz de tolerar quantidades habituais destas substâncias corrosivas. Ocasionalmente pode haver um desequilíbrio da produção ou do controle destes “corrosivos”, ocorrendo um retorno indesejável do conteúdo do estômago e duodeno para o esôfago e para a garganta, causando danos de graus variados ao epitélio de revestimento destes órgãos. Denominamos esta condição de DOENÇA DO REFLUXO GASTROESOFÁGICO (DRGE). Esta doença tem sido muito estudada e tratada pelos gastroenterologistas em sua forma clássica que cursa com dor de estômago, queimação no peito e, muitas vezes, com refluxo de alimentos ou líquidos ácidos de volta à garganta. No entanto, na última década foi descoberta uma forma atípica desta doença aonde quantidades menores de ácido chegam até a garganta silenciosamente, ou seja, sem serem percebidas pelo indivíduo, mas podendo causar grande estrago local. Na grande maioria destes casos, o indivíduo não sente nada no estômago, pois a quantidade de ácido está normal para a “caldeira”. Todavia, como a garganta não possui mecanismos para se proteger do ácido, esta sofre danos consideráveis mesmo quando exposta a pequenas quantidades de refluxo. Chamamos esta condição de REFLUXO LARINGOFARÍNGEO (RLF) para diferenciá-la da forma clássica da doença.

A maioria das pessoas com refluxo laringofaríngeo tem como principais queixas a sensação de algo parado na garganta, que causa um pigarro intenso, muitas vezes relacionado com as refeições ou ao acordar. Como o ácido refluído pode queimar a laringe, atingindo ou não as cordas vocais, muitos referem rouquidão e tosse seca sem causa aparente. Esta condição pode causar danos importantes e, se não for diagnosticada e tratada adequadamente, pode evoluir para lesões nas cordas vocais chegando a ser implicada como um dos causadores do câncer de laringe.

Como a maioria dos indivíduos com RLF não têm queixas digestivas, esta doença passou desapercebida, inclusive pela classe médica, por muitos anos. Para fechar o diagnóstico é necessário fazer uma minuciosa avaliação da garganta e das cordas vocais atualmente realizada de forma rápida e simples pelo médico Otorrinolaringologista através do uso de fibras ópticas.

Para discutirmos o tratamento do RLF devemos nos lembrar do principal causador desta doença. Nossa sociedade moderna adotou um ritmo de vida e hábitos alimentares que são incompatíveis com a saúde geral, o que dizer então da saúde digestiva!! Assim sendo, a primeira terapêutica a ser implementada é a mudança de hábitos alimentares dos pacientes com DRGE. Deve-se evitar alimentos ácidos, gordurosos, condimentados, cafeínas e seus derivados, nicotina e álcool, principalmente à noite. Os pacientes também devem ser orientados a não deitar após as refeições e evitar o uso de roupas apertadas na cintura. Muitas vezes, uma dieta equilibrada e a mudança de hábitos de vida são o suficiente para controlar os sintomas mais leves. Naqueles pacientes com sintomas diários mais intensos ou com lesões laríngeas significativas tratamento medicamentoso se faz imperativo. O tratamento geralmente dura meses (4 a 6 em média) e o controle da doença será avaliado pela melhora dos sintomas e dos sinais de inflamação durante o exame otorrinolaringológico.

Autor
Prof. Dra. Claudia A. Eckley
Doutora em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
Fellow em Voz Profissional pela Thomas Jefferson University Philadelphia, EUA
Professora Assistente do Departamento de Otorrinolaringologia da Santa Casa de São Paulo